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Caixa Preta
Os estranhos também amam

Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love/2002) Direção: Paul Thomas Anderson Com: Adam Sandler (Barry Egan), Emily Watson (Lena Leonard), Philip Seymour Hoffman (Dean Trumbell), Luiz Guzman (Lance), etc
Comédia romântica é um termo saído da cabeça de algum marketeiro do cinema para vender aqueles filminhos com humor baunilha e romance diet. Normalmente estrelados por casais "fofos" como Meg Ryan & Tom Hanks, Julia Roberts & Richard Gere ou Hugh Grant & alguma inglesa qualquer, essas coisas também são conhecidas pelo preconceituoso rótulo "chick flick" (ou, filme de garota).
Em 2001, quando foi anunciado que um dos melhores cineastas da última geração iria meter a mão nessa cumbuca e escalar Adam Sandler como ator principal, temi que mais uma carreira escorresse pelo ralo precocemente. Depois da obra-prima "Magnolia", Hollywood deve ter exigido algo mais palatável de Paul Thomas Anderson e o cara espertamente tapeou os estúdios vendendo a idéia de uma comédia romântica de menos de 1 hora e meia de duração, com um ator panaca de protagonista.
Agora imagine que o filme em questão não traz um casal de comercial de perfume ou uma história com altíssimos níveis de açúcar. Pelo contrário: o personagem central de "Embriagado de Amor" é sócio de uma distribuidora de produtos vagabundos instalada num galpão. O cara é dominado pelas 7 irmãs (!) que o tratam como filho ou pior. Ele também parece algum daqueles nerds com quem todo mundo já estudou ou trabalhou pelo menos uma vez na vida. Retraído, solitário, cheio de tiques e com uma notável dificuldade de se relacionar com o sexo oposto. E ele ainda parece vítima de algum transtorno psicológico (um leve autismo? TOC??). Barry Egan é uma das mais convincentes composições no cinema americano em muito tempo e, à parte do inegável talento de PT Anderson em criar bons personagens, grande parte do mérito pode ser creditada à -- acreditem -- atuação excepcional de Adam Sandler.
"Embriagado de Amor" subverte a ordem da comédia romântica linha de produção desde o ínicio. Imagine que a cena de abertura mostra o personagem esquisitão descrito acima, discutindo detalhes de uma promoção com o Serviço de Atendimento ao Consumidor de uma empresa de alimentos! E imagine que, ao terminar o papo, ele vai até a calçada com um copo de café, testemunha um acidente automobilístico e vê uma van abandonar um pequeno piano na rua. A seqüência deve ter menos de 10 minutos e parece tirada de algum sonho. De fato, todo o filme é permeado por essa atmosfera.
Há vários traços recorrentes dos trabalhos anteriores de PT Anderson. O caso de amor entre o policial desajeitado e a garota junkie em "Magnolia" parece a dica para o romance torto de Egan com Lena (Emily Watson, ótima). O diretor é afeito a explorar detalhes prosaicos da vida de gente absolutamente comum. E isso não poderia ser menos verdade no caso de Barry e sua generosa admiradora. Ao invés de gente linda de morrer ou corpos se entrelaçando sob lençóis de seda, temos aqui pessoas com tremenda dificuldade de demonstrar afeição e amor, mas que precisam, mais do que nos romances de plástico, permanecerem juntas.
O diretor condensou as idéias que dariam nas 3 horas de "Magnolia" em pouco menos de 1 hora e meia, visitando temas pelos quais é vidrado. A cultura barata americana é visitada na obsessão de Barry em tirar vantagem de uma promoção que dá milhas de vôo a quem compra produtos alimentícios de determinada marca. E dá-lhe o personagem visitando supermercados e recortando cupons. Outro exemplo é o recurso do tele-sexo, utilizado também por Barry, para matar a solidão. Por comparação, em "Boogie Nights" teríamos toda a cultura da pornografia e, em "Magnolia", as palestras absurdas de auto-ajuda para machões de farol baixo. "Embriagado de Amor" é mais um filme suburbano de Anderson, ainda situado num local que lhe fascina (o vale de San Fernando em Los Angeles) e regido por códigos pouco sofisticados.
A subtrama da vez recai justamente nos vigaristas da operadora de tele-sexo, liderados por mais um dos geniais personagens de Philip Seymour Hoffman (ator-fetiche de Anderson que está em todos os seus 4 filmes, incluindo "Jogada de Risco"). Barry precisa enfrentar esses sujeitos e sua força vem da inspiração causada por Lena. Está aí outra virtude na direção: o personagem não sai da linha mesmo quando é preciso ser mais valente do que o cara que fica trancado na sala tocando um pianinho. Numa comédia sem classe, Egan, à essas alturas, se transformaria no cara corajoso, confiante e descolado, destruindo toda a construção do personagem até então. Anderson escapou dessa armadilha e não transformou seu sapo em príncipe, pelo menos não dessa maneira tão convencional.
É estimulante ver na tela a história de 2 pessoas que não se encaixam exatamente no padrão de gente popular e bem-sucedida na América, mas é na maneira como isso é feito que está o toque de mestre. Há cenas de beleza arrebatadora: Lena e Barry conversando pelo interfone do prédio, Barry voltando para visitá-la após alta do hospital com promessas tão tolas, etc. E o verniz para tudo isso vem em forma de uma envolvente aura de sonho, das estranhas e belas vinhetas com texturas coloridas, do posicionamento sensacional de câmeras (vide cena do papo com a garota do tele-sexo) e mais.
"Embriagado de Amor" tem direção extremamente segura e nós dá a certeza de estarmos à frente da obra de um verdadeiro carpinteiro do cinema. Sensível, estranha, melancólica e muito original. Se todas as comédias românticas fossem assim....

Escrito por Mr Eddy às 04h55
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